17/09/2016

Ensino Doméstico


Neste ano lectivo, a Ana inscreveu a sua filha em Ensino Doméstico. 
Esta escolha representa uma mudança radical nas crenças habituais. A maioria de nós não contempla esta visão no seu percurso escolar. O mais natural é ir para a escola. É mesmo?

Quando alguém coloca a cruz em Ensino Doméstico, no boletim de matrícula, já fez uma caminhada de aprendizagem sobre o tipo de educação escolar que pretende para os seus filhos. É uma escolha estudada e discutida em família. É uma opção exigente ao nível académico, ao nível familiar e ao nível económico. Cada família terá as suas razões em ter optado pelo ensino doméstico. Sabemos no entanto, que a escola pública precisa de uma mudança profunda. Ainda esta semana surgiram notícias sobre este assunto que podem ler aqui e aqui. E a cada passo surgem notícias sobre violência nas escolas. O bullying é uma realidade diária e é causa de suicídio entre adolescentes. A tendência para achar "normal" a violência entre crianças é a mesma que acha "normal" a palmada e o castigo.

Aos que, embora gostassem, mas não podem optar pelo ensino doméstico e aos que simplesmente esta opção não faz qualquer sentido, resta continuar a lutar por uma escola pública mais ajustada e com mais empatia.

O texto que vão ler a seguir é inteiramente escrito pela Ana e aborda a sua opção pelo ensino doméstico. Foi a partir do seu texto  "Não pode protegê-la para sempre" que  lhe lancei o pedido de escrever algo sobre este tema. Obrigada Ana pela partilha! 
Podem acompanhar a Ana através do seu blog fitadevies.wordpress.com. 



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Optar pelo Ensino Doméstico foi um acaso feliz. Em conversa com uma colega de trabalho, durante a minha licença de maternidade, tomei conhecimento desta modalidade. Ela assegurou-me que seria uma excelente escolha para a minha filha. A partir daí, pesquisei imenso sobre o assunto e a decisão foi tomada em conjunto com o meu marido. A nossa filha começou agora o 1.º  ano e acreditamos que tomámos a escolha certa.

Em condições ideais considero que o Ensino Doméstico poderá ser amplamente benéfico para a criança e para a família. Em condições nada ideais poderá ser catastrófico. Da mesma forma que a escola é a melhor coisa do mundo para muitas crianças e adolescentes e a pior para outros, o E. D. poderá ser uma experiência fantástica e positiva ou castradora e traumatizante. Há que não esquecer que apesar das dificuldades que a escola enfrenta a nível de ensino/aprendizagem, é nesse espaço que muitos alunos têm acesso a cuidados de higiene, alimentação e afecto humano. Muitos professores e funcionários das nossas escolas são pais, mães, irmãos e tios. Apesar dos problemas que reconheço na escola pública recuso-me a fazer a apologia do E. D. como sendo a melhor opção do mundo. Poderá ser uma experiência fantástica consoante o empenho e dedicação dos pais. É importante que os pais/encarregados de educação sejam capazes de reconhecer as suas limitações e saibam desistir quando necessário. Pela  responsabilidade que acarreta creio que não é uma opção indicada para a maioria das pessoas. É crucial que as famílias que optam por este caminho tenham em consideração dois aspectos: se decidem inscrever os filhos em E.D. devem ensinar as bases transmitidas na escola (é importante atingir, pelo menos, os objectivos mínimos do Currículo Nacional) e devem ter um especial cuidado com a socialização dos filhos/educandos. São dois aspectos de extrema importância e que, devido a uma proliferação de anedotas infelizes nas redes sociais, são tratados de forma leviana. Julgo que se houvesse uma melhor aceitação da Declaração Universal dos Direitos da Criança muitos pais repensariam se terão o direito de retirar aos filhos a possibilidade de aprender determinadas matérias, por mais inúteis que lhes pareçam, ou de colocá-los numa situação de isolamento social[1].

Tendo em conta a recusa, da maioria dos pais homeschoolers, em aceitar que o ensino em casa possa ter desvantagens e criar problemas sérios, se mal encaminhado, não creio que esta ou outra qualquer opção de ensino se possa tornar na resolução mágica dos problemas desta sociedade. O problema é mais profundo do que uma mera opção de aprendizagem ou de estilo de vida.  Na verdade, considero que se há dedo a apontar é ao próprio Estado visto encarregar-se dos filhos dos cidadãos desde que nascem (creches) até à sua morte (lares). Acho extraordinário que poucas pessoas se atrevam a questionar o porquê desta institucionalização precoce do ser humano. Nem compreendo por que motivo as pessoas se espantam com a falta de empatia das gerações mais novas. Produzimos filhos que são criados em série, em ambientes artificiais, com cuidadores especializados, e ficamos surpreendidos com a alienação cada vez mais presente na sociedade contemporânea.

Esta alienação está presente, por exemplo, na forma como a sociedade encara o bullying. Ainda há a crença estranha de que as dificuldade moldam o carácter. Esta ideia não é completamente errada. A criança ao aprender a andar não se deixa vencer pelo obstáculo da queda. No entanto, não é por isso que os pais causam a queda propositada da criança para que aprenda a andar. Da mesma forma, embora o mundo real esteja cheio de dificuldades e desafios não é por isso que devem ser permitidas acções de teor criminoso que colocam em risco a vida e saúde física/mental das vítimas. É assim que encaro o bullying nas escolas. Não se trata de criar flores de estufa ou seres humanos incapazes de lidar com a menor das dificuldades. Trata-se de garantir que nas escolas todos os alunos se sentem em segurança. É um direito consagrado na Constituição portuguesa. Como podem as escolas esperar criar cidadãos exemplares quando não conseguem garantir a supressão de actos criminosos nos seus recintos? E por actos criminosos considero: violência física, emocional e sexual. É deplorável que num recinto escolar, como já foi noticiado, seja permitido alunos atacarem um colega despindo-o e atando-o a um poste. É inadmissível que um aluno seja sovado na zona genital por colegas, que seja violado nos balneários ou que seja humilhado publicamente e/ou nas redes sociais. E tudo isto num clima de impunidade. Devido ao aumento de indisciplina as escolas tornaram-se em arena. Para a escola pública funcionar é necessário que a sociedade exerça pressão para que o bullying tenha tolerância zero. Neste momento já vamos tarde demais. Infelizmente, a segunda causa de suicídio entre adolescentes, em 2010, foi o bullying. Em Espanha já começaram a surgir os primeiros casos de suicídio infantil. É terrível para um ser humano ainda em desenvolvimento ter de lidar com ataques sem ser capaz de se defender. Impossibilitados de pedir ajuda aos pais e professores, graças à mentalidade de “não sejas chibo”, “não sejas bebé”, “faz-te homem” e “desenrasca-te” há cada vez mais alunos a passarem por situações terríveis que despoletam problemas mentais e emocionais a curto, médio e longo prazo. Deixo como referência alguns estudos que focam de que forma o stress crónico afecta crianças e adolescentes a longo prazo:




A escola pública tem de mudar para que possa ser salva. É impossível existir ensino de qualidade quando se debate, todos os dias, com actos violentos de alunos contra alunos, funcionários e professores. Infelizmente, tais actos poderão ser apenas a resposta à institucionalização forçada e precoce que o estilo de vida contemporâneo impõe à maioria dos seres humanos. Ao fim ao cabo, vivemos todos na grande quinta de Orwell.




[1]Sobre estes assunto remeto a leitura para estes dois sítios na net: https://homeschoolersanonymous.org/ e http://www.responsiblehomeschooling.org/

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