07/12/2016

Montessori, O Natal, A Fantasia e o Espírito de Natal


Tema difícil. As questões:
Devemos fazer as crianças acreditar no Pai-Natal, para sentirem o espírito do Natal?
Como podemos pensar de que não saber sobre o Pai Natal, é algo mau ou triste?
Que mensagem transmitimos quando dizemos que os monstros não existem, mas que o Pai Natal existe e desce pela chaminé?
Se as crianças souberem que os presentes vêm da família e dos amigos e não do Pai Natal, torna a noite de Natal menos especial?
Se eu tenho uma relação de confiança com a minha criança, baseada na verdade, porque devo alimentar o mito do Pai Natal?
Se eu quero ensinar a minha criança que a vida custa a ganhar, como lhe explico a quantidade de embrulhos que coloco debaixo da árvore de Natal?

Felizmente, os meus pais nunca me iludiram com a história do Pai Natal. Não escondiam de onde vinham os presentes. E hoje, estou muito grata por isso. Mas também sinto alguma tristeza. Tristeza, por saber que, mesmo com dificuldades económicas ainda me davam presentes. Queridos Pais, não era necessário. Hoje, mais do que nunca percebo o vosso esforço. Na altura, certamente teria ficado contente com as prendas, eu sei. Mas sabendo que, isso exigiu o vosso sacrifício… dói bastante.
Nunca esquecerei que, não alimentaram o Natal com base em histórias, mas sim em partilha numa simples mesa de cozinha, recheada de comida saborosa.
E para mim Natal é isso, a simplicidade da reunião.
E os presentes? Dispenso. (embora as meias/roupa interior faça sempre jeito ;))
E os presentes para a minha criança? São suficientes os presentes dos avós, dos tios, dos padrinhos e dos amigos, dos vizinhos, das festas de natal locais…
E se ela quer algo específico, que nenhuma destas pessoas ofereceu? Sim, podemos ponderar,  vamos ver quanto custa, se podemos comprar e vamos juntas procurar essa coisa especial.

Será que temos de viver este mito, esta fantasia do Pai Natal, para dar alegria à criança? Ou para ela entrar no campo da imaginação ou criar fantasias?
Como podemos tornar o Natal uma época especial para as crianças, sem esta fantasia? É sempre uma decisão difícil para os pais, pois esta bastante enraizada na nossa cultura. E é difícil de evitar, porque desde a família à escola, quase tudo gira em volta da carta ao Pai Natal.

Sem querer impor ou idealizar, trago aqui uma outra prespectiva – o conceito de imaginação e fantasia abordado por Maria Montessori. 
No seu livro Spontaneous Activity in Education, Montessori escreve:


A tradução da palavra Credulity é credulidade, que significa:
- Qualidade da pessoa que é crédula e ingênua, que acredita facilmente naquilo que ouve.
- Crença nos sentidos da fé religiosa, nas divindades ou nas coisas sobrenaturais.

A imaginação tem imensa importância na vida da criança. Mas trata-se da sua própria imaginação, da sua própria fantasia. Daquela que ela própria constrói e não daquela que lhe é transmitida pelos adultos ou imposta pela sociedade. Quando lhe contamos a história do Pai Natal de barbas brancas, estamos a contar um mito a uma criança com base na sua credulidade. Ou seja, com base na sua ingenuidade e na sua capacidade de acreditar totalmente no adulto que ama.

Acho que esta análise de Montessori, mostra a todos que pensam que contar a fantasia às crianças potencia a sua imaginação. Estas histórias são produtos da imaginação dos adultos. E nós adultos, sabemos bem que são fantasias criadas com objetivos comerciais. Estas histórias não ensinam a criança a imaginar, ficam sim a conhecer histórias inventadas pela cabeça de outros.

Isto faz sentido para mim e para a minha família.

De qualquer forma, temos bonecos de Pai Natal em casa. A miúda brinca com esses bonecos e cria as suas fantasias. Escreve a carta ao Pai Natal e faz desenhos alusivos a essa figura. Isto não é fomentado em casa, mas é no mundo externo, onde ela habita e convive. E está tudo bem! 
É inevitável. Mas a forma como abordamos esta questão em família é que pode ser diferente. Se quisermos.
Se lhe perguntarmos quem é o Pai Natal, ela associa que é um boneco, do género dos bonecos dos desenhos animados e está na categoria da Elsa Frozen ou da Patrulha Pata! 
Não deixamos de cumprimentar os milhentos Pais Natal que nos aparecem na rua e nas lojas. Cumprimentamos, rimos e perguntamos se correu bem a tal viagem e se está muito cansado! 

Esta época do ano é muito rica em tradições pelo mundo fora. E há imensa coisa para além do Pai Natal, que podemos transmitir à criança e tornar esta altura muito especial.
Podemos falar sobre o São Nicolau e a sua bondade. É uma linda mensagem para as crianças e levá-las a criar a sua própria mensagem interior. 
Temos toda a preparação do Advento ao longo do mês de Dezembro, que pode ser muito criativa. A criação da coroa do advento com velas, pequenos ramos, paus, folhas, pinhas...
Podemos desenvolver várias atividades em volta deste tema, muito inspiradoras. Aqui tens algumas ideias que partilhei no Natal do ano passado.


Viver o Natal de forma tranquila, sem pressão de estímulos externos -  “se te portares bem , o Pai Natal traz-te uma prenda” Será por isto que ele existe? 
Brincar com as crianças, construir uma casinha de luz com elementos naturais que recolheram numa caminhada, será certamente viver a magia, a criatividade, a imaginação e a fantasia. E sobretudo sem aquela espécie de mentirinha que supostamente não faz mal a ninguém. Mas que infelizmente, muitas crianças, quando a descobrem, o seu coração fica totalmente partido. Será que vale a pena?



O nascimento de Jesus é o símbolo da esperança na humanidade. Esta é também a mensagem de Maria Montessori sobre a criança: ela é a luz para a salvação da humanidade e para a construção da paz no mundo.

Montessori, no livro A Criança, menciona que a energia desconhecida que pode ajudar a Humanidade é aquela que reside na criança, e que a devemos considerar como farol da nossa vida futura, pois ela contém o segredo da nossa natureza e se converte em nosso mestre.


As crianças são seres altamente inspirados e se lhes damos o poder de serem as nossas estrelas de esperança, todos iremos descobrir o verdadeiro espírito de Natal.


7 comentários:

  1. A questão do pai natal é muito pertinente. É válido mentir a uma criança apenas porque toda a gente o faz? Cá em casa nunca o fizemos e mesmo que o tentassemos fazer iríamos esbarrar com o espírito crítico da Carolina. Ela nunca acreditou quer no pai natal, ou em fadas ou noutra coisa qualquer. No entanto, nas suas brincadeiras finge que é uma fada, imagina palácios encantados e que tem poderes mágicos. Se lhes mentimos logo desde o início, como poderão eles confiar em nós quando forem mais velhos?

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    1. Ainda bem que a Carolina tem espírito crítico! Nada impede de brincar e ter muita imaginação, só que não é necessário partir de uma mentira!

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  2. Gostei imenso do que escreveu aqui! Tocou mesmo nos sítios certos. E vem ao encontro do que já acreditava: independentemente das circunstâncias exteriores, a posição e crença dos pais é sempre a mais importante, a que fica. Por isso, é que reflexões como esta são importantes. Bem-haja!

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    1. Olá Ana! Muito obrigada pelo seu comentário.Fico muito feliz que tenha gostado e que a mensagem tenha significado. Beijinhos e Bom Natal.

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  3. Quando era muito pequenina os meus pais faziam que acreditasse no pai natal e até devo dizer que eram momentos mágicos. Não haviam presentes até alguém bater à porta da casa da minha avó no dia 25 à meia noite. Eu espreitava por baixo das cortinas e via umas botas pretas. Eram claro, do meu pai!
    Quanto ao natal dos meus filhos, não os iludo. Sabem que o natal é uma época de reunir, de dar, de dizer obrigado. Não lhes compramos grandes presentes, basta o que recebem da família que já é imensa coisa.

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    1. O Natal é mesmo isso - o amor. Esse é o grande presente!

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  4. Sinceramente, nem 8 nem 80.
    Dizer a uma criança que existe o Pai Natal, no sentido objetivo é sim uma mentira. Mas há mentiras que não fazem mal a ninguém e não é por isso que a criança vai tornar-se melhor ou pior pessoa. Nem é por aí que haverá quebra de confiança. É só uma época. Não sejamos puritanos.
    Acho sim que se deve enaltecer sobretudo a partilha, o amor, a solidariedade, a união.
    A criança acreditará no Pai Natal até quando acreditar. Depois....a vida continua.
    Sejam felizes e façam os outros felizes!

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