31/01/2017

Sobre a obediência das crianças


18/01/2017

Leitura e Escrita | Montessori


Tocar as letras no sentido da escrita, é começar a educação muscular que prepara a escrita. 
A criança que olha, reconhece e toca as letras no sentido da escrita, prepara-se simultâneamente para a leitura e para a escrita.
Tocar as letras e olhá-las ao mesmo tempo, é fixar rápidamente a imaginação, graças ao uso de vários sentidos. Os dois exercícios separam-se de seguida: olhar (leitura); tocar (escrita).  
Esta descrição, sobre o método de leitura e escrita espontânea foi partilhada por Montessori, no seu livro Pedagogia Científica. 
Para mim, a mais poética descrição que já li, sobre o método de leitura e escrita de Montessori.
A análise foi feita por um mestre do ensino elementar, Prof. Ferreri, que aplicou o método e escreveu sobre essa experiência.

A leitura e escrita são atividades complexas. Basta relembrar a nossa própria aprendizagem,  que certamente recordamos o esforço que fizemos. Por vezes correu bem, mas muitas vezes era razão de insucesso escolar. Infelizmente, ainda hoje, assistimos a um processo de alfabetização forçado, conduzindo a dificuldades de leitura, de escrita e de compreensão.

Como posso ajudar a criança? Como posso ser a facilitadora do processo de aprendizagem?
Quando comecei a estudar o método montessori, percebi que a forma como era abordada a aprendizagem da leitura e da escrita era diferente. Há uma lógica sensível de continuidade e sobretudo de respeito pela criança.

Esta aprendizagem não começa de um dia para o outro. Existe uma preparação indireta desde o nascimento da criança, onde inicia o período sensível da linguagem, que se estende até aos 6 anos. A evolução é contínua. Tudo o que rodeia a criança é elemento de desenvolvimento da linguagem. 
A um determinado momento, e dependendo da criança e do seu ambiente, surge um interesse natural pela escrita, pelas letras e pela descoberta das palavras e da magia da leitura. O adulto só tem de estar atento. Este "só" ... não é fácil! Aqui reside a essência do adulto preparado, que consegue observar a criança e seguir os seus interesses.  
Qualquer ajuda desnecessária é um obstáculo ao desenvolvimento. Por exemplo: a criança quer desenhar, mas o adulto diz-lhe para desenhar um balão. E de forma entusiasmada o adulto ajuda a criança a desenhar o balão e até lhe dá instruções. Coloca a sua mão, sobre a pequenina mão da criança, que apenas queria desenhar o que a sua imaginação lhe dizia! E desta forma, entre outras, vamos apagando o genuíno interesse da criança. E ainda reforçamos a ideia, de que quando for para a escola, aos seis anos, é que vai aprender a ler e a escrever. O adulto não se apercebe das inúmeras oportunidades de ajudar a criança neste processo. E o que poderia ser feito sem esforço acrescido, é desperdiçado. E este esforço não natural  da criança leva ao seu desânimo, à sua desmotivação.  A aprendizagem faz-se por obrigação. Daqui podemos tirar muitas conclusões sobre o atual estado da aprendizagem das crianças, que tem sido divulgado em estudos, em livros, por especialistas de neurociências e educação infantil.

Os materiais montessori são extraordinários e estão interligados nos seus propósitos. Os cilindros de botão são preciosos para o movimento de junção dos dedos, que se revela mais tarde, essencial para pegar de forma correta no lápis.  Antes da escrita, é necessário trabalhar este movimento e fortalecer os músculos da mão e do pulso. Este trabalho é que vai auxiliar no desenvolvimento do traço e mais tarde da escrita. 
O desenvolvimento da habilidade da mão, acompanha o desenvolvimento da inteligência.

A minha experiência demonstrou-me que se, devido a condições particulares do meio-ambiente, a criança não puder utilizar a mão, o seu caráter permanece num nível inferior; enquanto que a criança que pode trabalhar com as próprias mãos revela um desenvolvimento acentuado e tem força de caráter. Mente Absorvente, Maria Montessori
Segurar e posicionar com segurança um lápis, é um mecanismo muscular intenso e especial, independente da escrita. Mas, ao mesmo tempo este mecanismo é essencial para os movimentos necessários para traças as letras do alfabeto.

Os Encaixes Metálicos, com 10 figuras geométricas são um instrumento para trabalhar o mecanismo muscular da mão e do movimento dos dedos. Um dos primeiros exercícios consiste em contornar com o dedo indicador a figura geométrica. Podemos acrescentar algum mistério ao exercício, ao fazê-lo de olhos fechados.  Num outro momento, a criança desenha com lápis de cor, sobre o papel,  o contorno da figura geométrica. De seguida pode preencher o espaço em branco com linhas. Com o tempo, estas deixam de ser confusas e de traço irregular e vão de bordo a bordo da figura. Quando já faz isto com mestria, é a prova que domina o lápis. Há uma variedade de exercícios que se podem realizar, do mais simples ao mais complexo. Mas todos estes momentos tem um ritmo, o ritmo da cada criança. 


Que lindo! ;)

Mas antes, de iniciarmos o traço das figuras, preparei os cartões de classificação. Este exercício de correspondência da imagem ao objeto e mais tarde (quando sabe ler) à legenda, é  dos que mais gosto de fazer. É uma forma de aquisição de vocabulário muito sensível e verifico que a miúda regista muito bem o vocabulário.




Nos exercícios do mecanismo motor, é necessário desenvolver o movimento contínuo da mão. Utilizam-se as Letras de Lixa, que servem para traçar os sinais gráficos. A criança toca as letras no sentido da escrita. O sinal do alfabeto fixa-se assim duplamente na memória, graças à vista e ao tato.



Neste conjunto de materiais, a criança tem a oportunidade de aprender através da visão e de sensações ao nível do tato. O desenvolvimento motor da escrita, através do traço e do desenho e a sensação tátil, das letras de lixa,  ficam registados na sua memória. E de forma criativa e sem manuais escolares, potenciamos a aprendizagem da escrita e da leitura.
Em nossa casa, não seguimos nenhuma ordem alfabética. Segue-se o interesse da miúda pela letra que escolher. Começamos pelas letras minúsculas de escrita manual cursiva. Para Montessori, este tipo de letra é mais fluída e constante para o movimento de mãos.

Ao mesmo tempo que vamos trabalhando as letras de lixa, são apresentados os sons das letras. 
Há algum tempo a Ana do blogue Fita de Viés, que escreve sobre ensino doméstico (e outros temas interessantes), falou-me no livro o Parque dos Fonemas - Sistema Fonomímico da Dra. Paula Teles. Eu andava à procura de material em português para trabalhar a parte fonética das letras e a Ana comentou que tinha uma boa experiência com este material.  Decidi usá-lo como material didático de complemento ao material montessori que descrevi em cima. E achei curioso ter também uma metodologia multissensorial
A partir do manual, criei os cartões de classificação (dei um toque montessori!).  Através do cd-áudio ouvimos a cantilena do abecedário, fazemos a correspondência do cartão e junto da grafia da letra. Esta grafia no livro, também está em relevo para a criança passar com os dedos seguindo as indicações das setas.




Antes ou a par, podemos trabalhar os traços/grafismos que habitualmente se utilizam no pré-escolar e no primeiro ciclo. 
Como os manuais são menos confortáveis para as crianças pequenas, e como sabemos que a autonomia é um valor imprescindível em Montessori, retirei as folhas de exercícios de grafismo de um manual que me tinham oferecido. Plastifiquei e junto coloquei canetas próprias de escrita em folhas laminadas, que tem uma pequena esponja para apagar a tinta. Em qualquer momento o material está pronto a ser utilizado.



Encontrei, aliás,  a miúda encontrou, no supermercado uns cadernos de grafismos. Gostei, porque as imagens não muito infantis, o caderno é fácil de abrir porque tem argolas, as folhas  são bastantes resistentes e ainda traz uma caneta presa com elástico. Portanto, mais uma vez, é um material que permite total autonomia. 




Apresento uma outra sugestão:  Cortei um tipo de grafismo,  num papel adesivo que imita o quadro de giz. Colei numa folha plástica. Preparei um tabuleiro com todo o material necessário: giz, esponja e água. 
Este também é um bom exercício. Exige o movimento de apertar a esponja para retirar o excesso de água. Exige cuidado não verter água, etc.


Falta referir outro material montessori - o alfabeto móvel. Será abordado num futuro próximo!

A nossa experiência não nos leva a diminuir a importância do ambiente, na construção do espírito. É sabido que a nossa Pedagogia lhe confere tão grande importância que o faz fulcro central de toda a construção pedagógica. Convém observar que as sensações são por nós consideradas de uma maneira tão sistemática e fundamental como se não faz em qualquer outro método de educaçao. Existe, contudo, uma diferença essencial entre o velho conceito da criança passiva e a realidade: é a existência da sensibilidade interior da criança. Há um período sensível muito prolongado, que dura quase até à idade de cinco anos e torna a criança capaz de se apropriar das imagens do ambiente, de uma maneira extraordináriamente prodigiosa. A criança é um observador que regista ativamente as imagens, por intermédio dos sentidos, o que é diferente recebê-las como se fosse um espelho. A criança, Maria Montessori 

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