06/07/2018

Resgatar o Ciclo


O documentário vencedor do prémio para Melhor Documentáro no California Women's Festival 2018 -Tampão, o nosso inimigo mais íntimo - tem gerado discussões pertinentes sobre o tema da saúde feminina. Numa dessas conversas, no grupo Viver Montessori, a Joana Portugal que escreve na página @maeforadaagua partilhou informação valiosa. Fiz-lhe o convite para escrever tudo o que sabe sobre saúde e higiene feminina. Ao longo do seu texto, vão certamente esclarecer muitas dúvidas.


💚

A Diana pediu-me para compilar um pouco do meu conhecimento sobre este tema tão importante para todas as mulheres e eu assim o tentei fazer. Eu sou bióloga de formação e por isso as questões fisiológicas são muito naturais para mim. Além disso a minha preocupação ambiental fez-me muito cedo começar a procurar soluções para minimizar o meu impacto no planeta. Na altura em que comecei a minha investigação na área das alterações climáticas uma das coisas que estudávamos nos peixes (além do efeito dos micro-plásticos e das alterações ambientais) era o efeito de fármacos (antidepressivos e hormonas sintéticas) na sua biologia. Fiquei horrorizada quando percebi que a pílula que todas tomávamos ia parar aos oceanos (através da nossa urina) e tinha efeitos tremendos na reprodução de diversas espécies. Isso e o historial familiar de cancro da mama fez-me querer deixar a pílula imediatamente e encontrar uma solução mais natural e ecológica. E assim começou o meu lento caminho nestas questões da saúde feminina.

Para mim, a educação em saúde feminina deveria começar bem antes de nos tornarmos mulheres, de termos de lidar com as mudanças do nosso corpo, com a menstruação, com o sexo, com tudo o que é ser MULHER na nossa sociedade. Deveria começar quando a criança começa a descobrir o próprio corpo, a olhar o corpo dos que estão à sua volta, começa a questionar de onde vêm os bebés, porque a mãe sangra do pipi… A actual desinformação do que é ser mulher começa com o que não é ensinado às meninas sobre respeito do próprio corpo, sobre anatomia feminina, sobre sexualidade, sobre a nossa ciclicidade… Começa com a perda de saberes seculares que eram passados de mães para filhas, com a nossa desconexão da natureza e dos seus ciclos. Acredito que esta desinformação generalizada sobre a saúde feminina vem da fraca educação “sexual” que temos hoje em dia, do tabú que se sente em relação a tantos temas como a masturbação infantil, a menstruação, o prazer feminino e por aí fora. Por isso acredito ser tão importante recuperar este conhecimento e o passarmos às nossas filhas, quebrando o ciclo de reproduzir comportamentos sem os questionarmos. Em baixo deixo algumas sugestões de recursos interessantes para crianças e adolescentes. 

A nossa sociedade tem evoluído a um ritmo alucinante e o aparecimento da pílula foi um marco importantíssimo para a “libertação” das mulheres. Podermos assumir controlo sobre a nossa fertilidade é de facto uma coisa maravilhosa e tanto contribuiu para a mudança do papel da mulher na sociedade. A realidade é que hoje em dia é raro encontrar uma mulher em idade fértil que não tome a pílula (ou qualquer outro dispositivo hormonal: anel vaginal, DIU hormonal, adesivo, implante…). Seja através do recurso a estrogénio ou progesterona sintética estes métodos param o nosso “relógio hormonal interno” e basicamente fazem com que a mulher pause a sua fertilidade (inibem a ovulação, logo a gravidez não é possível). 
Não me vou alongar sobre o que são hormonas ou como elas atuam sobre o sistema reprodutivo feminino, porque penso que é a parte da informação que a educação fornece atualmente. Vou apenas referir que estas hormonas sintéticas que tomamos para pausar a nossa fertilidade, causam a paragem do nosso ciclo hormonal, da nossa menstruação (o sangue que se perde na semana de pausa da pilula é uma hemorragia de privação hormonal, não é menstruação), com consequências a diversos níveis. Sei que muitas vezes se recorrem a estes métodos hormonais para “tratar” outros problemas (ciclos “irregulares”, quistos nos ovários/mamas, acne, dores menstruais…) e que eles são prescritos por médicos da nossa confiança desde cedo e são tidos como coisas banais, com efeitos secundários “mínimos” em comparação aos benefícios. Em relação a isto não me quero alongar, porque tomar ou não a pílula é uma opção pessoal e se for uma decisão informada é tão válida como outra qualquer. 

Deixo apenas apenas duas notas: 
⏩Ao parar a tomar da pílula estas condições reaparecem todas, já que as hormonas não tratam, apenas escondem os sinais de condições (ou desequilíbrios) que existem em nós. 
⏩Ciclos “irregulares” são a exceção, não a regra. As mulheres não são relógios e naturalmente quase ninguém tem ciclos certinhos de 28 dias, com ovulação no dia 14. Ter variações de 2,3… 5 dias nos nossos ciclos é perfeitamente normal e prende-se com o facto de a nossa fase pré-ovulatória (folicular) ser muito influenciada por fatores externos (stress, doença, medicamentos…), já que o nosso corpo quer garantir que estamos no nosso melhor para a libertação do óvulo. Deixo abaixo um link onde podem perceber melhor isto.

Acredito que é importante resgatarmos a informação ancestral que está gravada no nosso DNS, esta ciclicidade natural que se prende com o nosso ciclo hormonal e que a nossa sociedade tão pouco espaço deixa para ouvir. Todos nós conhecemos o tão temida TPM e muitas piadas se dizem sobre o quão “insuportáveis” as mulheres ficam naquela altura. A verdade é que cada fase do nosso ciclo menstrual tem características diferentes e estarmos conectados com o nosso corpo, pode levar-nos a uma maior compreensão dessas características e ao potenciar de cada fase. 
O nosso ciclo menstrual divide-se em 4 fases, cada uma delas com a duração de cerca de 1 semana e cada fase tem uma energia associada bastante diferente:
        ✓Fase menstrual – Energia muito baixa, introversão, recolhimento, renovação
        ✓Fase pré-ovulatória – Energia mais expansiva, início da fase fértil, vitalidade, ligeireza
        ✓Fase ovulatória – Energia mais extrovertida, fertilidade, vontade de relacionar, produtividade
        ✓Fase pré-menstrual – Energia baixa, reflecção, sensibilidade emocional, infertilidade

Quando estamos conectadas connosco, livres das máscaras hormonais e nos permitimos ouvir o nosso corpo, esta ligação com a nossa ciclicidade faz todo o sentido. De facto, a nossa força anímica varia ao longo do mês, a nossa produtividade, o nosso desejo sexual, a nossa vontade de sociabilizar, a nossa clareza mental… ir reconhecendo esta ciclicidade interna, para dela podermos tirar o máximo partido pode de facto ser muito libertador (escolher uma altura mais favorável para fazermos uma apresentação no trabalho, para um fim de semana romântico ou para um retiro de yoga, por exemplo). 
Esta ciclicidade interna está muito ligada à ciclicidade da natureza, aos ciclos da lua, às estações do ano e varia com as diferentes fases da nossa vida (infância/adolescência/idade fértil/ menopausa). E é o seu conhecimento que nos permite termos um controlo natural sobre a nossa fertilidade, sem termos de recorrer a métodos hormonais. Não me alongando muito, os ditos métodos “contracetivos naturais” baseiam-se na identificação dos cerca de 6-8 dias por mês em que a mulher está fértil e onde de facto precisa de evitar uma gravidez (através do uso de preservativo ou abstinência ou …). 
O conhecimento das alterações no nosso corpo ao longo do ciclo, no nosso muco vaginal, na nossa temperatura basal, faz da identificação destes dias algo bastante preciso. São métodos com uma taxa de eficácia comprovada acima dos 96% e uma opção não hormonal para evitar uma gravidez (mas que requerem um autoconhecimento e empenhamento diário na identificação de diferentes sinais, que podem não apelativos a muitas pessoas). Deixo abaixo algumas fontes onde podem saber mais sobre o assunto.

Para terminar este assunto gostaria ainda de falar da higiene feminina. Algo que também tem sido negligenciado e que nos leva a ter como “standart” o uso de pensos higiénicos e tampões. Além das questões ambientais relacionadas com o uso de produtos descartáveis, que para mim foram uma das motivações iniciais, há as questões de saúde associadas a estes produtos. Os pensos higiénicos que usamos normalmente são lixiviados e carregados de substâncias toxicas (pesticidas, ftalatos e afins) que em contacto com a delicada mucosa vaginal levam a um aumento da incidência de infeções. Os tampões além destes mesmos problemas – não há obrigação de informação ao consumidor dos componentes destes produtos - podem levar a uma reação grave que é a Síndrome de Choque Tóxico. Esta síndrome é causada pela proliferação dos estafilococos dourado no interior da mulher, o que leva a uma infeção grave e pode mesmo conduzir à morte. A presença ou não desta bactéria é variável de mulher para mulher, mas é relativamente comum. No entanto, o uso de tampão leva a um processo oxidativo do sangue no nosso interior, criando um meio muito favorável para o crescimento desta bactéria. 
E então o que fazemos?

  • usar pensos biológicos (minimizando a exposição do nosso corpo a toxinas nefasta);
  • usar pensos reutilizáveis;
  • minimizar o uso de tampões ao estritamente necessário (usando sempre biológicos pelos motivos apontados);
  • usar o copo menstrual (tendo em atenção que a questão de oxidação do sangue se mantém, apesar de minimizada, logo é preciso cuidados de higiene redobrados: mãos sempre limpas, copo esterilizados todos os dias... e não abusar do número de horas consecutivas de uso). 


Por fim, deixo a ressalva para que evitem o uso de produtos de higiene íntima, apesar de a sociedade nos querer passar esta imagem de que a vagina é uma coisa “suja” – basta olhar para o tamanho dos corredores de produtos de higiene íntima feminina vs os de higiene íntima masculina- e de que o sangue, deve ser “escondido” a todo o custo – porque é que os líquidos dos anúncios de pensos higiénicos são sempre azuis? – não há nada de errado com o nosso cheiro (salvo em caso de infeções) ou com a nossa menstruação. A higiene com um sabão natural (de pH neutro) é perfeitamente suficiente para a nossa vagina. O uso de óleo de cocô pode ajudar na lubrificação/hidratação da mesma e prevenir o aparecimento de infeções, mas mais do que isso não haverá necessidade em vaginas saudáveis.

Este texto resume a minha visão atual em relação à saúde feminina. Não pretendo apregoar nada, apenas apresentar uma visão informada e abrangente deste assunto. Espero que vos faça questionar alguma da informação que temos como certa desde meninas e tomar uma decisão informada sobre o que faz mais sentido para vocês, de acordo com o vosso historial clínico, fase da vida e nível de investimento que estão dispostas a fazer na vossa saúde feminina.

Recursos
-Hemorragia Privação

- Ciclos irregulares

- Ciclicidade

-Métodos Fertilidade Natural

-Copos Menstruais

-Tampões

-Livros infantis/adolescência
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- Lojas online

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